Bem, eu já pensei em me aposentar, eu até cheguei a anunciar isso há alguns anos, mas eu pensei: na verdade não preciso me aposentar. Enquanto tiver forças e saúde, eu vou estar no palco. Além disso, tenho uma banda formidável, a melhor que você pode imaginar. Essa gente precisa de trabalho. Eles têm que trabalhar, isso me motiva a trabalhar também! Moro em Las Vegas, mas ninguém vai ver o B.B. King espreguiçando numa cadeira ao redor de uma piscina!
É engraçado, porque existe a lenda de que as pessoas ouviam o blues no campo de algodão, mas não foi o meu caso. Minha primeira exposição ao verdadeiro blues foi ouvindo o estilo no fonógrafo de uma tia. Era sempre uma ocasião especial ir para a casa dela, quando eu era adolescente, e ouvir discos de 78 rotações de Blind Lemon Jefferson, Lonnie Johnson e Mississippi John Hurt. Eles eram meus ídolos, na verdade ainda são.
É, eu quase me tornei um cantor gospel! Quando eu era garoto, minha mãe me levava a uma igreja no Mississippi. Hoje eu sei que era um truque dela, ela queria muito que eu me tornasse pregador. Isso nunca foi minha intenção, mas eu observava muito o pregador, ele também tocava guitarra, ele era um showman. Aprendi muita coisa com ele. Eu cantei e toquei guitarra em quartetos de música gospel por um certo tempo. Viajamos por todo o sul, mas, quando chegou a hora de gravar, rumamos para Memphis, já que lá existiam os melhores estúdios do sul dos Estados Unidos.
Sim, definitivamente, minha carreira efetivamente nasceu lá. Memphis era o lugar para onde a música que eu conhecia e amava convergia. Por lá passavam os melhores artistas de country, blues, gospel e jazz. Eu visitei a cidade pela primeira vez depois da Segunda Guerra, senti o ambiente e voltei para o Mississippi, para me preparar melhor. Lá tinha muita gente boa no ramo, a competição era dura, principalmente na Beale Street, a “Broadway do blues”. O tempo que trabalhei lá como DJ serviu para conhecer muita gente, o que me ajudou muito a me profissionalizar. E foi graças a um senhor chamado Sam Phillips [produtor e fundador da Sun Records] que as coisas começaram a acontecer. Ele produziu alguns dos meus primeiros discos e graças a ele aprendi a me movimentar no estúdio, buscar o melhor de mim e da minha guitarra. Deixei minha marca na música de Memphis. Anos depois, conheci lá em Memphis o jovem Elvis Presley, que confessou ser meu fã. Eu não sabia que tinha tantos garotos brancos que rota ouviam o blues!
Eu acho que na verdade eu sou um trompetista frustrado [risos]. Em minhas primeiras gravações usei um naipe de metais e eu mantenho isso até hoje, gosto do som de trompetes e saxofones se misturando à minha guitarra e complementando minha voz. Minha primeira grande influencia, antes mesmo de outros nomes do gospel e do blues, foi Louis Armstrong. Eu conheci todos os grandes nomes do jazz, como Benny Goodman, Duke Ellington e Count Basie, eles foram verdadeiros exemplos. Aprendi com eles como ser um bom músico e também tudo o que você precisa saber sobre disciplina e profissionalismo. Ter ouvido as gravações da orquestra do Benny Goodman nos anos 40 foi outro momento importante para mim. Charlie Christian era o guitarrista da banda de Goodman, foi um músico que influenciou toda uma geração.
Eu sempre fiquei surpreso quando nos anos 60 todos esses jovens músicos ingleses diziam que eu era o mestre deles. Quando eu conheci Eric Clapton, ele não tinha nem 20 anos. É o maior guitarrista do rock e toca blues como ninguém. Foi uma boa experiência fazer esse disco, não seria nada mal repetir a dose.Riding with the King ganhou disco de platina, ainda está vendendo.
Não acho que o blues seja diferente de qualquer outro tipo de música. Eu nunca ouvi música de que eu não gostasse. Desse jeito, também nunca iria tocar música que não me dissesse nada. O blues não é tristeza, não é pobreza, ele deve ser tocado em salas sinfônicas. Para mim, é um aprendizado, um estilo de viver e é como eu ganho meu sustento. Acho que melhoro a cada dia nesse ofício que é tocar o blues.














